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sábado, 23 de maio de 2020

Hoje desconfinei


Queridos leitores e amigos da Rainha, hoje desconfinei tal como o gato enclausurado do poema anterior. 

Mais uma vez precisei de fazer compras e como tal, tive de sair. Mas confesso que até me fez bem apanhar o ar da rua. Hoje custou-me menos do que da outra vez. Talvez, por já ter saído uma vez, talvez por estar mais bem disposta, ou simplesmente por ter trocado de máscara. Hoje escolhi uma máscara de cortiça, comprada a uma marca Portuguesa, que apesar de ser um pouco quente, não me bloqueou a respiração. 

E tal como prometido, não me esqueci da fotografia. A pouco e pouco vou-me adaptando a esta nova realidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O gato enclausurado

O gato fechou-se em casa.
Já não queria ir à rua.
-Tenho medo!-Afiançava.
Remeteu-se à clausura.

Ficava-se pelo janelim.
Aborrecido se sentia
observando o jardim
várias horas no seu dia.

O nosso gato medroso
teria assim continuado
caso o seu estômago
não o tivesse atraiçoado.

Finou-se a ração.
Ele não tinha reparado.
Abriu, pois, uma excepção
e foi ao supermercado.

Jovita Capitão, Rainha das Insónias.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Pirilampos

Parecia chover.
Fui ver.
Não era chuva.
Era apenas a natureza
a chamar por mim.
Por momentos
não reconheci o espaço.
No silêncio da noite
centenas de pirilampos
dançavam no meu terraço.

Jovita Capitão, Rainha das Insónias.

domingo, 17 de maio de 2020

«"Agarrem que é Covid!"» - Breve viagem ao Supermercado.

Queridos leitores e amigos da Rainha, depois de estar precisamente 60 dias seguidos em casa, finalmente saí à rua. Só saí porque precisei mesmo de ir ao supermercado, senão não me atreveria a sair. Não foi nada fácil respirar com a máscara colocada. Momentos houve que achei mesmo que não ia aguentar. Dentro do Pingo Doce, deu-me uma vontade enorme de tossir. Fiquei em pânico e espreitei pelo canto do olho as pessoas ao meu redor a ver se alguém tinha reparado o quão aflita estava. Depois, tentei acalmar-me e por sorte consegui. A ideia que me passou pela cabeça foi que, caso eu tossisse mesmo, viessem atrás de mim dizendo: "Agarrem que é Covid!" Não se riam. Na altura não teve piada. Assim que consegui recolher os produtos que eu precisava, apressei-me a ir para a caixa. Queria sair dali o mais rápido possível. Felizmente, não correu assim tão mal. Na rua não me cruzei com muita gente e o supermercado estava praticamente vazio. Não tirei nenhuma fotografia porque nem sequer me lembrei. Estava tão obcecada em me despachar, que nem apreciei a viagem. Foi pena, mas fica para uma próxima vez, que nem sei ainda quando será. Quando cheguei a casa, foi um alívio. Tirei a máscara e respirei fundo, visivelmente aliviada. Finalmente, estava de novo em segurança.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Desabafo.

Gostava de dizer que já passou.
Que não tenho medo de sair.
Mas isso seria uma mentira
já que por vezes não sinto alegria.

Quero muito acreditar
que este pesadelo irá passar.
Só não sei quanto tempo vai demorar.
Sinto a vida a desmoronar.

O futuro é tão incerto.
Quantos mais terão de morrer?
E os nossos entes,
ainda teremos tempo de os ver?

Desculpem, mas não consigo conter
as lágrimas enquanto estou a escrever.
O tempo foge-me das mãos
e a tinta acabará por desaparecer.

Jovita Capitão, Rainha das Insónias.

Tenho dito!

Dizem que estamos a voltar ao normal.
Não acredito. E o que dizem não é bonito.
Ainda não é hora de sair de casa, tenho dito!

Jovita Capitão, Rainha das Insónias.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Constatação

Nos momentos mais difíceis
descobrimos quem são
os verdadeiros amigos
que nos dão a mão.

Nos momentos incertos
aparece alguém
que nos devolve a esperança
que nos sustém.

Jovita Capitão, Rainha das Insónias.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Tudo muda num segundo

Um dia, abraçarei o mundo,
rirei de novo junto ao rio
e num instante de desvario
poderei ter tudo!

Tudo é uma questão de tempo.
Mas palavras, levam-nas o vento,
porque tudo muda num segundo.

Jovita Capitão, Rainha das Insónias.

Só sei que nada sei.

Queridos leitores e amigos da Rainha, esta noite demorei a adormecer. Fiquei muito tempo a pensar sobre o momento que estamos a viver. Tenho de me reinventar, se quero sobreviver. Não sou só eu, claro. Toda a gente tem de se adaptar aos novos tempos. Sei que com o tempo toda a gente se adapta. Uns mais depressa do que outros. Mas quanto a mim, "só sei que nada sei". Nunca esta frase teve tanto sentido.

Faltam apenas quatro meses para o meu aniversário. Todos os anos faço imensos planos, mesmo que alguns não sejam possíveis de concretizar, mas o entusiasmo de os planear é tão grande que me dá uma energia extra para lutar pelos meus objectivos. Só que desta vez vislumbro um ano pouco risonho. Já não me apetece fazer planos como antes. Só quero viver um dia de cada vez. Só quero saber o que vou fazer para o almoço amanhã e pouco mais.

Novos tempos, é certo. Tento adaptar-me aos poucos. Mas para já não faço planos, pelo menos por enquanto. No futuro, talvez. Mas agora, fico apenas a observar o mundo à minha volta através das várias janelas que me possibilitam saber notícias do exterior. A ver vamos o que poderei fazer mais tarde. 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Mais um dia em casa...

Mais um dia em casa.
Mais um dia a pensar
se será seguro
poder viajar
nem que seja ir só ali
ver o mar
e depois voltar.

Mais um dia em casa.
Mais um dia a pensar
se será seguro
fazer umas comprinhas
mesmo que pequeninas.

Mais um dia em casa.
Mais um dia a pensar
se será seguro acreditar
que o pior já passou
e deixar-me levar
pela falsa sensação
de segurança
que as máscaras dão.

Mais um dia em casa
mais um dia a pensar
se será seguro
ir só ali espreitar
ou a vida retomar
por inteiro.

E de tanto pensar
acabo por não sair.
O medo sobrepôs-se,
toldou-me o pensamento
e já não sei o que fazer.

Jovita Capitão, Rainha das Insónias.

sábado, 9 de maio de 2020

Só que não.

Está vento lá fora.
Este, revoltado, deita tudo ao chão.
Parece Outono, só que não.

Jovita Capitão, Rainha das Insónias.

Estranheza

Esta estranheza não é só minha.
Também é da minha vizinha.
E daqueles que mal conheço.
Temos a vida do avesso.

É estranho, o isolamento social imposto.
Parece que estamos agarrados a um qualquer desgosto.
Já nem podemos ir de férias em Agosto
sem pedir permissão para estar na praia. 

É estranho, parece pecado até
dar um abraço a quem se quer bem.
De longe dizemos olá aos amigos,
e até aos nossos ente queridos.

É estranho, as crianças
não poderem brincar.
E serem proibidos os afectos, 
mesmo que sejam discretos.

É estranho os nossos idosos
tristes, cansados e ociosos
completamente sozinhos em casa
ou nos lares à espera da sua vez.

É estranho estar em público
com medo da própria sombra.
As máscaras escondem sorrisos
mas também os rostos do medo.

É estranho estar aprisionada em casa
quando antes era o meu porto de abrigo.
É estanho ter de olhar as pessoas pelo postigo
mesmo que à porta esteja um amigo.

São estranhos estes tempos.
Impossíveis de entranhar.
Pois nas minhas entranhas
só existe a vontade de acordar.

Jovita Capitão, Rainha das Insónias.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Versos

Há versos que tocam a nossa alma.
Há poemas inteiros que nos engolem.

Jovita Capitão, Rainha das Insónias.