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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Biografia de Cesário Verde

Fotografia de Cesário Verde
( imagem da internet)
Cesário Verde foi um dos maiores Poetas Portugueses, porém findou-se muito cedo, com apenas 31 anos de idade. Nasceu em Lisboa em 1855 e a sua vida foi preenchida pela agricultura, pelo comércio e pela poesia. Em 1873, iniciou o Curso Superior de Letras mas rapidamente o abandonou prosseguindo como Correspondente Comercial. Ao mesmo tempo, Cesário Verde escrevia poesia para o Diário de Notícias perante a crítica mordaz de intelectuais influentes da época, tais como Ramalho Ortigão e Teófilo Braga. Em 1874, o poeta projectou a publicação de um livro de poemas, projecto esse que não se concretizou.
Cesário foi um poeta incompreendido, ignorado e muito criticado no meio literário Português. Mas isso não o impediu de escrever toda a sua vida. Escreveu para amigos, conhecidos e artistas até falecer em 1886, com tuberculose.
Cesário Verde, como muitos Escritores e Poetas daquela época, só foi reconhecido após a sua morte. O reconhecimento deu-se em 1887, pelo seu grande amigo Silva Pinto. Nessa data foi publicado o que viria a ser o primeiro volume de poemas de Cesário, cujo título é: "O livro de Cesário Verde". O que sobrou inédito, acabou por perder-se para sempre num incêndio que lhe devorou a casa em 1919. 
A importância de Cesário Verde reflete-se na poesia actual. Cesário, foi um dos iniciadores da poesia moderna. A sua poesia trata de pessoas do campo ou da cidade, das coisas humildes, de coisas simples, de coisas do quotidiano e critica os meios intelectuais da sua época com uma ironia cortante. As principais características da poesia de Cesário são: O realismo, a análise, a ironia e a visão objectiva.
Entre os poemas mais conhecidos estão: Cristalizações, Horas mortas, Deslumbramentos e Contrariedades.

Estátua de Cesário Verde ( imagem da internet)

Contrariedades - Poema de Cesário Verde.

"Eu hoje estou cruel, frenético exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta à botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas.
Mas sim, por deficiência, a amigos ou artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone.
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie.
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos.
E apuro-me em lançar, originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas.
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova,
Esvai-se; e todavia à tarde, francamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas.
Conseguirei reler essas antigas rimas.
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras:
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras.

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!"

Cesário Verde - Porto, 18 de Março de 1876

Este poema foi retirado do Manual de Língua Portuguesa do 11º Ano, Página Seguinte, Texto Editores.